segunda-feira, 3 de setembro de 2018

ENCONTRO COM RAMA, UMA PÉROLA DA FICÇÃO CIENTÍFICA


A humanidade esta assustada, cientistas detectaram um gigantesco astro em rota de colisão com o sol, dentro do nosso sistema solar. O objeto, apelidado de Rama impressiona pelo seu tamanho e proporções inimagináveis.

            A terra, ainda esta traumatizada depois de uma colisão de um meteorito que atingiu à Europa 50 anos atrás. Depois do acidente as nações do planeta criam um comitê para lidar com estes assuntos, e é dele que surge a ideia de enviar uma expedição para interceptar Rama e descobrir um pouco mais sobre ele.
            A cada página, o suspense aumenta com revelações que prenderão o autor até a última página. Rama não é um meteoro e sim uma construção extraterrestre que desafia os limites da ciência e da imaginação humana.
            
             O livro foi publicado originalmente em 1972 e venceu os mais importantes prêmios da ficção científica; o Hugo, o Nebula, O Júpiter e o British Science Fiction Association (BSFA). Apesar de décadas após o lançamento da primeira edição, a história continua moderna e interessante. São vários personagens interessantes, mas nenhum deles completamente desenvolvidos, devido ao tamanho da história, o que não prejudica a narrativa.
          
           O autor, Arthur Charles Clarke nasceu na Inglaterra em 1917, foi divulgador científico e escritor de ficção científica. Seu trabalho mais famoso foi o roteiro/livro do filme 2001 Uma Odisséia no Espaço. O autor tem mais de 30 livros publicados, sem contar contos, coletâneas e artigos científicos.
         
          Na área de ciências, sua maior contribuição foi o conceito do satélite geoestacionário, como ferramenta para desenvolver as telecomunicações, publicado em forma de artigo científico na revista Wireless World em 1945.  Em sua homenagem a órbita estacionária também é conhecida como órbita Clarke. Conheça Rama, conheça Clarke a imaginação sempre será a vencedora.


Nota 8.5

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Mortos entre Vivos, um horror que tiraria o sono até de Stephen King



Por Wendell Stein

John Ajvide Lindqvist é o nome de um autor difícil para se pronunciar, mas quando nos deparamos com sua escrita o resultado é espetacular. É um autor que consegue atingir em seu segundo livro “Mortos entre Vivos” um avanço em seu estilo literário, iniciado com seu primogênito “Deixa Ela Entrar”.  Lindqvis lembra o Stephen King nos anos 80, sobretudo pelo fato que depois de um tempo já não conseguimos mais parar de ler.

A história começa em Agosto de 2002 na Suécia, mas precisamente na cidade de Stocolmo. Primeiro a população começa a sentir uma dor de cabeça que a cada dia  aumentar. Em seguida os aparelhos eletrônicos continuam a funcionar mesmo se retirados das tomadas. Por final, os mortos começam a retornar a vida (pelo menos àqueles que faleceram a pelo menos dois meses). Eles não são violentos, nem comedores de cérebros, são pessoas comuns que retornam fétidos e putrefatos e que, mesmo sem consciência, querem retornar a seus lares.

O governo apelidam estes mortos, de “Revividos”, mas no começo não sabem como lidar com a situação, seja do ponto de vista ético, politico e médico/sanitário. Todo o desenrolar desta história é contada através de três núcleos de personagens:

 A família de Eva, uma escritora que reviveu logo após morrer, sendo a única que consegue pronunciar algumas palavras completas, apesar de parte do seu corpo estar dilacerado. O marido de Eva, David é separado da esposa, que é usada como estudo de caso do fenômeno. O marido irá fazer de tudo para recuperá-la.
              
            A Família de Elias, de seis anos de idade e que morreu à cerca de um mês. Neto de um jornalista de final de carreira, Gustav Mahler. 

A família do senhor Tore, idoso e recém-falecido, avô de Flora e marido de Elvy. Duas mulheres com estranhos dons paranormais, e com uma conexão especial com os “revividos”.
               
           Segundo a Editora Tordesilhas que lançou o livro no Brasil, sua tradução ao português foi feito diretamente do sueco. O ritmo, o desenvolvimento de personagens, atos e pontos de virada lembram muito um roteiro de cinema. Isso não é para menos, o autor Lindqvist trabalhou por muito tempo como roteirista audiovisual.
               
           “Mortos entre vivos” é uma leitura pesada, tétrica (que lembra, às vezes, o Cemitério de Stephen King) e com muita intensidade psicológica. O clímax da história até que poderia ser um pouco mais desenvolvido, mas a boa leitura e a simpatia que criamos com os personagens compensam todo o resto. Dá uma vontade de quero mais, apesar das mais de 400 páginas do material.

            Que venham os próximos trabalhos do autor.


             Nota 8.5

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Novembro de 63: Viagem no tempo, minissérie e poesias







"Não pedimos este salão ou esta música. Fomos convidados a entrar.
Portanto, porque a escuridão nos rodeia, voltamos nossos olhos para a luz.
Suportamos os momentos de dificuldade para agradecermos os de abundância.
Foi nos dada a dor para nos surpreendermos com a alegria.
Foi nos dada a vida para não aceitarmos a morte. Não pedimos este salão ou esta música.
Mas já que estamos aqui, vamos dançar."
Stephen King

                Sempre fui um fã incondicional de Stephen King, desde seu primeiro livro que li Salem´s Lot há muito tempo atrás. Desde então seus livros sempre me surpreenderam, as adaptações de cinema nem todos. As obras de Stephen King são complicadas em transformar em filmes e séries devido à complexidade e quantidade de personagens. Vamos lembras que boa parte de suas histórias tem mais 500 páginas. Ao roteirista cabe o grande desafio de conseguir transformar um estilo de escrita para um novo formato e com a duração adequada.  

Quando li seu livro Novembro de 63, ainda em sua versão original em inglês, em um pequeno leitor kindle, encantei-me com a história. A jornada do pacato professor de inglês Jake Epping nos convence, pois é muito real. No começo da história ele está na sua sala de aula e se emociona com o relato escrito pelo faxineiro idoso Harry Dunning. A redação de Dunning conta como sua família foi assassinada décadas atrás, quando ainda era uma criança.
              
           Acompanhamos a vida do professor Epping e descobrimos que ele é uma pessoa divorciada e solitária. Uma de suas rotinas principais era ir à lanchonete da cidade comer Hambúrgueres baratos, na quais achavam deliciosos. A primeira reviravolta da história, uma entre dezena delas, ocorre quando o dono do lugar, Al, conta a Jack um misterioso segredo e dá a ele uma missão, voltar ao passado e deter o assassinato de John Kennedy. O bacana no livro é como essa história se torna crível para o leitor, e na hora que entramos neste mundo somos inteiramente envolvidos. O próprio tema viagem no tempo nunca foi tão plausível e real.
           
          Stephen King mostra porque ele é tão genial. No final do livro, de mais de 700 páginas, a gente fica com ele na cabeça por muito tempo, não querendo se despedir dos personagens.
                
          Alguns anos depois da leitura do livro, soube de sua adaptação em formato de minissérie, a primeira reação foi de apreensão, pois seria uma história de difícil adaptação para a telinha. Descobri que seriam oito capítulos fechados e sem chance de se tornar uma série com temporadas; ponto positivo. Fui à procura de mais informações então descobri que J.J. Abrams estaria produzindo a série depois de várias conversas com o próprio Stephen King, ou seja, as chances de ser uma bela produção eram altas.

          Pouco tempo adquiri a versão em DVD da minissérie a assisti, o resultado foi apenas um: Fantástico.Todos os personagens são carismáticos e os vilões desempenham perfeitamente seus papéis. Bridget Carpenter que roteirizou a novela de King acertou ao colocar um personagem Bill Turcone (George MacKay) em um papel abrangente na trama que não estava no livro, assim o personagem de Jake Epping (James Franco) tinha a quem expor em voz suas ideias e pensamentos (que no livro eram apenas pensamentos). Sadie Dunhill (Sarah Gandon) esta belíssima no papel da parceira de Franco, muito parecida com a personagem do livro (em beleza e ação) e Lee Harvey Oswald (Daniel Webber) é muito semelhante esteticamente ao personagem histórico que representa, convencendo.
           
         Vale ressaltar que quando Jake Epping atravessa bi tempo, são dois anos a menos do que o mostrado no livro, coisas necessárias para caber nos oito episódios. Enfim um ótimo programa para uma maratona com a família de final de semana.
         
          Nota livro: 9.2 / Minissérie: 7.8

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Anos sem Volta, histórias com a cara dos anos 80





     Sucesso editorial do mercado digital no Brasil, com quase 8 mil downloads (entre vendas e empréstimos pela Amazon.com), o livro Anos Sem Volta - Recordações dos Anos 80 merece atenção da mídia. Veja algumas informações e opiniões sobre a obra.

    Anos sem Volta fala sobre infância e adolescência nos anos 80 do ponto de vista de uma criança, que amadurece no decorrer das histórias. Um retrato de um período mágico para aqueles que viveram em pequenas cidades no interior do Brasil. Época onde a cultura pop fervilhava, e no cinema, graças a dupla Steven Spielberg e George Lucas, podia-se novamente sonhar em outros mundos, outros tempos. Na música foi o auge do rock nacional, do Rock in Rio ao mesmo tempo em que toda uma geração foi assustada pela chegada da AIDS, que segurou a onda sexual e os costumes que vinham dos Anos 70.        Tempos mais ingênuos, amizades mais verdadeiras, festas, bailinhos e descobertas... Não havia pressa em crescer. A violência era pequena, quase inexistente, e as crianças podiam andar a noite, sem ter medo de pararem dentro de um saco plástico. Grande parte das pessoas que viveram nesta época, hoje são pais,alguns até avós. No final de qualquer jornada, a única coisa são as amizades e recordações surgidas neste caminho, Anos sem Volta é uma história sobre todos vocês!

    "Na leitura desse livro se pode ver como os sonhos se tornam mais palpáveis pela realidade que adquiram no decorrer das palavras. Wendell não sonha com a irrealidade, mas por aquilo que motiva a sua vida, o chamado a uma aventura que se faz presente no imaginário. E, daí, torna-se real, palpável, verdadeiro. Ele conta histórias, entremeia sua vivência com o imaginário. Traçar uma linha que divida esses mundos não é mais possível, porque tudo tornou-se real ...tudo é credível, tudo existe.- Rondon de Castro, doutor em comunicação e semiótica, jornalista e professor de jornalismo na UFSM. "

    "O livro me surpreendeu, e muito... os relatos foram muito engraçados (quando a intenção era essa). É daquele tipo de livro que a gente quer continuar lendo, mesmo contando uma história simples. Na verdade foi a simplicidade dos contos que cativou. É uma narrativa fluida e uma história curiosa. Não sei o quanto se misturou de ficção e realidade, mas ficou muito bom. - Pamela Chistine - Jornalista, Revisora e crítica literária."

    A obra está disponível em formato digital na www.amazon.com.br

Solo chega em bluray



Wendell Stein especial de Orlando


Será lançado este mês nos Estados Unidos em bluray o mais novo filme da franquia criado por George Lucas em 1977 “Solo: Uma história Star Wars”.
É uma época importante para os fãs da saga, primeiro porque a Walt Disney esta em fase final de construção na Flórida de uma grande expansão de seu parque, dedicado exclusivamente para o mundo de Star Wars. Um investimento bilionário em um mundo imaginário onde até uma Millennium Falcon em tamanho real estará disponível para os fãs. Será uma imersão total ao mundo de George Lucas.

O NOVO FILME
Muita coisa tem se falado deste novo filme do universo expandido de Star Wars. Os filmes anteriores, “O Despertar da Força – 2015”, “Rogue One: Uma história Star Wars - 2016”, “Os últimos Jedis - 2017” tiveram uma ótima recepção de crítica e bilheteria.
“Solo, uma história Star Wars” teve muitas especulações por parte da mídia, sobretudo depois que a Disney demitiu os diretores Christopher Miller e Phil Lord no meio das gravações do longa-metragem, passando a tarefa para Ron Howard, diretor de sucessos como “Forrest Gump” e “Uma Mente Brilhante”.
Talvez a missão do novo diretor seja realmente arriscada, os filmes anteriores da saga contaram com muito dos atores da trilogia original, o novo filme não contará. Ninguém consegue imaginar um ator que consiga igualar-se ao carisma de Harrison Ford, para o papel de Han Solo. Quem assumiu o desafio foi o ator Alden Ehrenreich. A novidade será a participação de uma atriz muita famosa, Emilia Clarke, a mãe dos dragões, é ela sim, a Khalesi da série “Guerra dos Tronos”; pelo o trailer, parece que terá um papel importante na nova saga espacial.

A HISTÓRIA
Conta a aventuras do Jovem Han Solo e sua jornada para uma galáxia muito, muito distante. Em meio a uma série de peripécias no sombrio e perigoso submundo do crime, Solo conhece seu futuro copiloto Chewbacca (Joonas Suotamo) e encontra o conhecido apostador Lando Calrissian (Donald Glover), em uma jornada que definirá os rumos de um dos heróis mais inesperados da saga Star Wars.

ONDE TUDO COMEÇOU
Foi em 25 de maio de 1977 que o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado no cinema, no Brasil chamado “Guerra nas Estrelas”. Seu diretor e criador, George Lucas ouvia de todo mundo, diretores, críticos, pessoas de alto escalão no cinema, que o filme seria um fracasso. O único amigo que acreditava no sucesso do longa-metragem foi Steven Spielberg, tanto que os dois estavam isolados no Havaí no dia que o filme foi lançado nos cinemas.
Uma coisa bacana de se mencionar foi que durante este momento em que os dois amigos estavam no Havaí, que Lucas revelou a Spielberg sua vontade de levar aos cinemas, uma aventura nos moldes das matines da década de 30. Lucas fazia questão de ter Spielberg como diretor; era o nascimento de outro fenômeno, “Os caçadores da arca perdida”.  Então o telefone tocou no hotel e quando Lucas atendeu, esperando o pior, foi informado que filas gigantescas se formavam nos 32 cinemas que exibiam o filme nos Estados Unidos.
A propaganda para o lançamento do filme tinha sido pequena, pois o estúdio não queria gastar mais dinheiro com o possível “elefante branco”. Lucas novamente inovou, convenceu uma importante editora americana, a Del Rey publicar seis meses antes do filme, a novelização de Star Wars que vendeu quase 500 mil exemplares.
O filme foi um sucesso, concorreu ao Oscar de 1978 com de 10 indicações e em pouco mais de quatro semanas todos os custos de produção do longa foram pagos graças à bilheteria.

BRINQUEDOS QUE AMAMOS
Quando assistimos a um filme bacana e queremos ir à loja de brinquedos e comprar miniaturas de personagens, jogos e camisetas devemos agradecer a George Lucas, nada existiria hoje se não fosse ele e Star Wars.
 Lucas lembrou que foi muito difícil encontrar alguém que aceitasse investir no filme, então o diretor reduziu ao mínimo sua participação nos lucros com a comercialização do filme e em troca recebeu integralmente os direitos sobre merchandising de sua obra. Isso marcou o nascimento de uma nova Hollywood e uma forma inovadora de fazer negócios. Lucas se tornou bilionário, criando empresas especializadas em efeitos especiais, sonorização e videogames como a “Lucasfilm”, “Skywalker Sound” e “LucasArts”.
Quem ganhou com isso foi os fãs, com uma gigantesca quantidade de brinquedos, camisetas e eletrônicos baseados na saga. A própria Disney, deve muito de seu faturamento hoje graças à comercialização de merchandising de seus produtos, graças a mercado que Lucas desbravou.
E falando em Disney, em 2012 ocorreu uma das transações mais bilionárias na indústria do entretenimento, onde Lucas vendeu a “Lucasfilm” e todos os produtos ligados à marca, por US$ 4 bilhões de dólares a empresa do Mickey. Graças a este negócio, foi possível a retomada da saga no cinema, filmes derivados da saga e a área de expansão Star Wars na Walt Disney World.  
Antes mesmo da venda da “Lucasfilm”, a Disney, nas últimas três décadas, sempre teve uma parceria constante com Lucas, atrações nos parques da Disney, como Indiana Jones e Star Wars já marcavam um namoro que trinta anos depois tornaria casamento. E quem ganhou o presente foi o público, com tudo que já aconteceu e tudo que ainda esta por vir!

Que a Força esteja com vocês!

terça-feira, 31 de julho de 2018

Outsider, a volta do Stephen King dos anos 80

                                   
                                                                       Wendell Stein


Stephen King mesmo após mais de 50 livros lançados ainda consegue impressionar. Seu novo livro Outsider lançado este ano no Brasil é prova viva do talento do escritor. A história começa quando a polícia encontra o corpo de um garoto, brutalmente assassinado em um parque na fictícia cidade de Flint City.  No começo das investigações várias testemunhas apontam como autor o treinador da liga infantil de beisebol, Terry Maitland.  Ele era um cara admirado por todos na cidade; professor de inglês, casado e pai de duas filhas.  Maitland vê sua vida mergulhar em um pesadelo. As provas fazem o detetive Ralph Anderson prender o treinador.

Maitland afirma que é inocente e que durante a noite do crime estava em outra cidade em um evento acompanhado de várias testemunhas. A partir daí, a história é cheia de reviravoltas, com participação de uma personagem que fez parte de outra trilogia policial de King. Há uma mistura de elementos de It, O Iluminado e A Hora do Vampiro.

O ritmo de leitura flui perfeitamente, a única impressão que o livro deixa, é que seu final poderia ser um pouco mais trabalhado, principalmente o personagem sobrenatural do enredo. Parece que tudo se resolve rápido e simples demais, um erro que dificilmente ocorreu nos livros anteriores de Stephen King, mas nada que prejudique o prazer que a aventura proporciona.

O livro tem 530 páginas e no Brasil foi lançado pela editora Suma. Se fosse comparar o livro a um filme ele seria como aqueles longas que passavam na Sessão da Tarde na Rede Globo anos 80:  descartável mas inesquecível.

   Nota 7.8

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O Cachorro que fazia chover (CONTO)




                    Nero era um cachorro e tanto; não apenas pelo seu tamanho enorme, comum para um Mastim Napolitano, mas sim pelo seu jeito desengonçado de andar. Quando filhote foi atropelado por um caminhão (que desviava de um buraco em Sumaré), não morreu, mas por toda sua vida canina teve que conviver com um pedaço de platina implantada em sua pata. Graças ao acidente, andava aos trancos e solavancos, por vezes se atrapalhava e rolava pelo chão.
                 O que Nero mais gostava era dormir. Nestes momentos ele lembrava aquele gato vagabundo dos quadrinhos. Uma vez a empregada disse que o cão tinha ficado o dia inteiro dormindo, era sossegado demais, não era e nem tinha cara de brabo, apesar da cara grande e enrugada, dos dentes afiados e da boca que despejava litros e litros de baba por dia. Era covarde, fugia até de gatos e chegou a levar uma surra de uma galinha.
                Certo dia um bêbado apareceu no sítio onde morávamos. Era uma propriedade bem perto do centro da cidade, o que fazia alguns pinguços se perderem, acabando por dormir entre vacas e galinhas. Neste dia, apareceu um bêbado perdido, ele logo esbarrou  em Nero. O Mastin olhou com seus olhos vermelhos para o homem, seu pelo azul arrepiou-se todinho, o animal abriu sua boca e bocejou. No final o “pingaiada” acabou adormecendo ao lado do cachorro. Acordou só no dia seguinte, ainda bêbado e com o cão lambendo sua boca,  deixando uma camada grossa e melenta de baba em volta do rosto do homem, que por Deus, nunca mais voltou ao lugar. Acho até que parou de beber.
                O fato interessante é que dias depois, no meio da maior seca que a região já teve, o cachorro parou de babar, e juro por Nossa Senhora das Estrelas Marinhas, ele começou a latir. Você vai me dizer que qualquer cão consegue latir, não? Sim, mas o velho Nero começou a latir musicalmente, uma melodia tão afinada como um tenor no ápice de sua carreira. As pessoas que moravam no sítio ficaram espantadas. Seria possível um cachorro babão latir tão bem? Por várias horas  ele cantou até que um barulho vindo do céu anunciou chuva. Gotas grossas de água caíram do céu sobre a terra seca e castigada. Os agricultores da cidade se reuniram no sítio e dançavam sobre a água, saudando a mágica do cachorro Nero. A notícia não demorou a se espalhar, e o Mastin Napolitano se transformou em uma figura reverenciada. Centenas de pessoas vinham de todas as partes do Brasil para conhecer o animal. Ninguém sabia o nome do prefeito de Sumaré, mas de Nero o cachorro milagreiro até nos confins da China era conhecido.
                Os donos do animal (não me incluam nisso) ficaram milionários vendendo potes com a baba do cachorro (que tinha voltado a babar).  Houve até uma eleição onde Nero foi o candidato mais votado, mas por não ser humano não pode assumir.  Isso sem contar das pessoas que formavam filas com suas cadelas no cio, ansiosas para serem cruzadas com o Mastin Napolitano. O desgaste físico para atender todas suas fãs caninas fez Nero perder quase quatro quilos.
 Desde então, o cachorro nunca mais conseguiu repetir seu número musical, e como tudo na vida, as pessoas foram se esquecendo do acontecido. Hoje tem até gente que duvida do feito prodigioso do Mastin.
                Tem coisa que só os animais poderiam explicar  ou alguém que pudesse entender sua língua. Não sei se isso ocorreu comigo ou se sonhei um sonho sonhado. Mas testemunhei dois animais conversando.  Nero estava deitado em sua nova casinha, e proseava com o Galo Pinto. O galo ria aos cacarejos:
                - Eu não disse, “cunpadre” Nero. Os humanos são um povo engraçado.
                - Verdade, “cunpadre” galo – Bocejou Nero – Mas a gente se deu bem nessa. O engraçado é que você que fez todo o serviço pesado, né? Viu na televisão que ia chover naquele dia e então bolou todo o plano.
                - Pois é. Mas “cunpadre” cão, sem você para fazer o número musical, nunca iríamos conseguir.
                - Olha, Galo, vou te contar um segredo. Não era eu que tava latindo não.
                - Ora amigo. Então quem era?
                O cachorro virou a cabeça dentro de sua casinha e saiu com um objeto preto, explicou:
                - É um radinho AM, que o bêbado esqueceu comigo no dia que ele dormiu comigo.
                - Bem que e imaginava. Por um momento cheguei a imaginar que “ocê” era um cantor de verdade.
                - Agora o mês que vem a gente faz de novo. Agora com você “cunpadre” galo.
Ambos se abraçaram e riram à vontande. No dia acordei e ri deste sonho ridículo. Mas quando fui limpar a casinha do Nero, encontrei bem no fundo um rádio de pilhas AM, preto.
MORAL DA HISTÓRIA: - Cachorro que baba não late e galo que pensa não canta.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

UMA AULA POR DEZ REAIS


“Aquele que se acha esperto demais um dia acaba caindo nas garras da própria esperteza.”


            Quando a gente acha que já viu de tudo na vida sempre alguma coisa acontece para nos surpreender. Trabalhei por algum tempo em uma empresa de engenharia e automação em Sumaré e certo dia o telefone tocou às dez horas da manhã. A pessoa do outro da linha se identificou como representante de uma cooperativa de produtores rurais da distante cidade de Anauá, Roraima. Ele explicou que através de uma pessoa que conhecia as qualidades de nossa empresa, indicou-o para nos visitar. Nosso diretor, cauteloso, tentou pegar mais informações sobre o foco do serviço que o homem procurava, mas o tal representante, que se identificou como José Marques disse que gostaria de conversar pessoalmente.  Marques disse que tinha uma consulta médica em Piracicaba às 17 horas e já que Sumaré ficava no caminho iria dar uma rápida passada para se apresentar.
 Dito e feito, logo um senhor beirando seus 65  anos, olhos claros, andando com a ajuda de uma bengala, barba por fazer, e visualmente bem vestido entrou se apresentando.          Durante nossa reunião, que durou cerca de 2 horas, ele contou uma história fascinante.  Ele faz parte de um grupo de outros 39 jovens que em 1959 se aventuraram a povoar a cidade de Anauá,  motivados pelo apoio do governo militar. Lá eles iriam produzir arroz para o mercado Venezuelano. Com detalhes contou das dificuldades, das lutas com os índios e das doenças. O grupo de amigos agricultores chegaram a cultivar 320 mil hectares de arroz em plena savana. Com o tempo toda a produção era absorvida pela Venezuela, chegando a representar mais de 70 milhões de dólares, no período que o país mantinha um contrato social com mais de cinco milhões de pessoas.
            Com as últimas loucuras do presidente da Venezuela Hugo Rafael Chávez Frías, que estatizou dezenas de multinacionais e cortou a compra do arroz da cooperativa de Anauá, uma crise se instalou. Rapidamente os agricultores contrataram a Price Waterhouse para encabeçar o projeto de reengenharia da associação. De acordo com Marques, apenas com a automação total da industrialização do arroz, cortando em mais de 80 % a mão de obra e usando da biotecnologia seria possível se reposicionar e ocupar terreno em outros países, além de se manterem competitivos para o mercado brasileiro. A produção tinha que ser escoada.
            Com isso, sua intenção era contratar uma empresa de engenharia e automação em São Paulo, neste caso a gente, para auxiliar neste processo, desenvolvendo projetos, coordenando e indicando profissionais competentes para a rapidez do empreendimento. Em todo o momento o velho falou com conhecimento, demonstrando domínio em áreas como engenharia, comércio exterior, biotecnologia e toda a tecnologia de cultivo de arroz.
            Mas o grande problema de Sr. Marques foi à tragédia que ocorreu. Quando ele vinha de São Paulo, atravessando Campinas na Santos Dumont, depois de visita o bairro Itatinga,  um acidente de carro grave. Seu automóvel foi  destruído após se chocar com um pedaço de pedra colocado na pista por bandidos. Foi resgatado horas após o acidente, sem dinheiro (roubaram 22 mil reais) e documentos.  Na hora que ele contava  ele tirou uma sacola com vários dentes e sorriu mostrando a gravidade do impacto. Ele explicou que ficou vários dias desacordado e quase teve que amputar uma das pernas. Então foi transferido para Unicamp onde os médicos conseguiram salvar seu membro. Sem documentos, dinheiro e telefone ficou  em um abrigo que existia em Barão Geraldo, enquanto recebia diariamente seus tratamentos médicos. Seus amigos e parentes em Anauá, só foram contatados no dia anterior, através de um equipamento de rádio. A região onde morava sofria com uma das piores chuvas dos últimos 20 anos, e só com o equipamento apropriado de rádio-escuta era possível o contato. Graças a isso o filho de seu Marques iria chegar  dentro de quatro dias para buscar o pai,  ajudá-lo a tirar novos documentos e levá-lo de volta para Anauá.
            Em nenhum momento ele pediu ou aceitou ajuda, apenas voltou-se para o assunto de sua visita. Disse que tinha hoje o quadro de funcionários da empresa um engenheiro chefe e se fosse de nosso agrado em cinco dias eles estaria nos visitando para explicar mais do projeto. No final ele agradeceu, aceitou um café e perguntou o caminho da rodoviária.  Nosso diretor ofereceu ajuda e disse que se ele precisasse de alguma coisa era só entrar em contato. Eu me ofereci  para levá-lo até Pìracicaba onde receberia o tratamento dos dentes, ele negou a ajuda e pediu que se o deixasse na rodoviária, isso já seria o suficiente.
 O levei, no caminho ele disse que nunca tinha passado por tamanha humilhação como nos últimos dias e que não se importaria em ficar mais alguns dias sem comer. Na frente da rodoviária, peguei uma nota de dez reais e ofereci para ele poder almoçar. Ele negou ao ponto de eu ter que pegar e colocar o dinheiro no seu bolso. Então ele agradeceu e seguiu em direção a rodoviária.
            Quando voltei ao escritório, as pessoas que estiveram comigo na reunião do Sr. Marques estavam dando risadas, ainda mais depois que contei que dei os dez reais do meu almoço para o velho. Então o diretor da empresa me emprestou um impresso que  havia acabado de achar na internet, de 2005, onde contava a história de um vigarista, chamado José Marques que rodava o Brasil pregando este golpe, ou seja a pelo menos a sete anos. Uma das pessoas que caiu no golpe foi um publicitário no Rio de Janeiro que rendeu uma coluna publicada em 30/05/2005 no jornal O Globo.
            Eu ao contrário do que os outros acharam, eu não me irritei e nem fiquei chateado. Expliquei o porquê; primeiro fiquei conhecendo um pouco mais de geografia e história brasileira. Aprofundei-me em informações de biotecnologia aplicadas na agricultura e nanotecnologia e automação, todos aplicados a sistemas de aquecimento, estufa e armazenamento. Passei quase duas horas aprendendo e ouvindo uma história sensacional e aprendi lições valorosas. Não se pode nem chamá-lo de estelionatário, pois não o é. Em nenhum momento pediu dinheiro ou favores a troco do futuro suposto contrato fantasioso.  Agora perguntou:  qual professor ou escola de publicidade e estratégia iria cobraria apenas dez reais para tudo isso.
            No final de tudo tenho mais é que agradecer ao suposto professor José Marques, da associação de agricultores de Anauá em Roraima por esta experiência. Devemos sempre olhar o lado bom das pessoas, mas sempre ter cautela, confirme os dados, procedência antes de qualquer negócio. O mundo nunca foi tanto dos espertos como tem sido hoje.

“A maior esperteza de um homem é sempre agir com a verdade.”

segunda-feira, 16 de julho de 2018

LITERATURA: EU SOU A LENDA

“Eu sou a lenda”, livro de Richard Matheson escrito em 1954 foi uma das grandes surpresas literárias que tive em 2018. Em 2008 assisti o filme com o mesmo nome, estrelado por Will Smith e dirigido por Francis Lawrence e não gostei da produção. A decepção com filme não ajudou a encarar a leitura do livro. É inacreditável o que uma péssima adaptação literária faz com uma produção cinematográfica, vide “A Torre Negra” de 2017, que “esculachou” a obra magistral de Stephen King.
Foi graças a um comentário de Alexandre Callari, professor, escritor, apresentador do programa “Pipoca e Nanquim” e tradutor de altíssima qualidade que acabei lendo o livro “Eu sou a Lenda”, e que que livro!
Sempre fui um aficionado por histórias de vampiros, tendo “´Salem´s Lot” de Stephen King e “They Thirsty” the Robert R MacCammon como meus livros favoritos do tema. “Eu sou a Lenda” é um livro escrito na década de 50, mas completamente atual, um horror psicológico que nos prende a cada página.  A gente se sente dentro da pele do protagonista, Robert Neville, o único sobrevivente de uma epidemia que transformou as pessoas em vampiros. Acompanhamos sua solidão, a dor da perda da esposa e cada passo que ele percorre, sua jornada, com um realismo absurdo. É um livro que investiga a fundo a ciência por trás do vampiro; o que leva a transformação; a razão do funcionamento de objetos como alho, espelhos e crucifixos nestas criaturas. O próprio Neville estuda estes questionamentos nos levando a descobertas fantásticas.
A obra editada pela Editora Aleph tem um acabamento gráfico impecável, conteúdo extra, e uma boa tradução a cargo de Delfin.
Richard Matheson é famoso por ser o roteirista de vários episódios da primeira versão de “Além da Imaginação” e do romance “Em algum lugar no Passado”, também escreveu o livro “Hell House” publicado nos anos 80, além de dezenas de outras obras divididas entre contos, roteiros, romances e textos sobre metafísica. Stephen King e George Romero são pessoas que foram diretamente influenciados pela obra deste autor, que fez evoluir o clima gótico existente na literatura desde “Drácula” de Bram Stoker.
Uma obra cheia de surpresas que caminha por lugares escondidos dentro da alma humana e que nos faz indagar o que nos faz seres humanos. É uma leitura que nos leva, junto ao personagem a uma catarse, que mesmo por um fim não hollywoodiano, nos liberta e nos faz refletir em quem somos e o que nos podemos nos tornar. Valeu Alexandre Callari!
Nota do livro = 9.8

ABOUT ME


I graduated in Journalism in 1999 and have developed a career in investigative journalism. For nearly two decades I have written about movies, literature, ufology, politics and history through UFO reporting, an international magazine, I have written columns in magazines such as Revista Fato, Jornal A VOZ, Cidade News, I was a reporter for Jornal Todo Dia, UFO Magazine and others in this 20 years of journalism and UFO research. As an additional and always constant research I wrote books on the subject that talk about my research and have extensive data on research. These are books and movies involve large-scale journalistic research which is one of the goals for the next months.  Wendell Stein